As vezes para se sentir bem, a gente tem que se sentir muito mal primeiro
Eu nunca escrevi sobre este assunto em lugar algum no mundo e eu sou uma pessoa que morro de medo de ficar exposta, de me sentir exposta, de me expor. Mas tem algo que me incomoda a anos, há muito anos, é aquelas típicas cicatrizes emocionais que a gente carrega. Mas nos últimos anos o causador dessa cicatriz voltou a fazer parte das conversas entre minha família pelo fato de meu pai ter morrido e por alguma infelicidade do destino ele ser filho adotivo do meu pai com direito a uma parte da herança. Eu sinto um embrulho no estomago só de tá escrevendo isso, mas lá vai, eu preciso desabafar. Quando eu tinha 4 anos de idade, ele tinha 15. E eu nunca tinha conhecido ele antes disso, até que um dia ele bate na porta da minha casa e o meu pai o acolhe, afinal era filho dele mesmo que só no papel. Na verdade, na época acreditavamos que ele era legitimo, só anos mais tarde a gente descobriu que a mãe dele mentiu a paternidade pro meu pai, só que ele continua por meios legais com o nome do meu pai como pai dele. Enfim, nessa época, eu não tenho lembranças de como isso aconteceu, afinal eu era muito nova, mas disso eu me lembro como um filme repetitivo na minha cabeça: eu me lembro dele me beijando escondido, colocando a mão dele dentro minha calcinha, me fazendo pegar nele embaixo da cueca. Não sei em que situações isso aconteceu, porque, como, mas essas imagens são muito vividas e nunca saíram da minha cabeça. Sim, eu já me questionei se foi sonho ou não, mas eu lembro muito bem de todos os detalhes, infelizmente. Ele foi embora e eu fui crescendo com repudio de mim, eu me olhava no espelho e me sentia nojenta, de alguma forma eu achava que era culpa minha. Mas porra eu tinha 4 anos de idade. Por anos eu fiquei calada, me sentia muito culpada. E contei sobre isso pela primeira vez na vida pro meu primeiro namorado aos 15 anos, e ele que me ajudou vê que a culpa não era minha, como poderia ser, e só dai que eu vi o quanto foi errado o que ELE fez, mas nunca tive coragem de falar nada pra minha família, não tinha coragem de encarar minha mãe e lembrar ao menos disso sem ter vontade de enfiar a cabeça num buraco, sair correndo, sei la. Meu namorado me ajudou a passar a metade do trauma a limpo, desabafando. Mas a outra metade me corroía, e me corroeu todos esses anos. Ate que eu comecei a ler relatos de pessoas que já tinham tido a mesma experiência, o mesmo abuso na infância, aos 24 anos que eu fui me da conta q eu não fui a única, e mais ainda, que todas elas se sentiram culpadas também. Quando se é criança é meio difícil saber o que é certo e o que é errado se os seus pais não te mostram, é difícil julgar, pois você não tem experiência nenhuma com o mundo, e acaba recorrendo a culpa por qualquer coisa, “isso só pode ter sido minha culpa” “eu não deveria isso” “eu deveria aquilo” e fica difícil, você se olha no espelho e ver um ser repugnante, que não merece nada de bom, foi assim que eu me vi a metade da minha vida. Mas eu desabafei. E melhorou metade dentro de mim, eu desabafei com meu pai antes dele morrer, eu desabafei com meu irmão depois de ler os relatos e com a minha mãe depois do funeral. Coisa que nunca eu tinha tido coragem de fazem antes dos 20 anos. E tocar neste assunto machuca muito, escrever sobre, e lembrar, mas é necessário, porque eu aprendi que guardar é mil vezes pior. Muito pior. A gente tende a se culpar, a se mutilar, a sofrer, a querer se matar ate. Eu não entendia quando aos 14 anos eu tentei desaparecer do mundo, o porque, so sabia que eu queria, mas agora eu entendo porque, eu não falei sobre isso, e porque eu não tinha consciência ainda que o que foi feito comigo era tão errado quanto possível, e eu nem ninguém teve como evitar isso. Eu não sabia que as crises de ansiedade q eu comecei a sofrer depois a morte do meu pai poderia ter algo vinculado com este trauma. Mas agora eu sei. E o filho adotivo agora com direitos a uma parte da herança do meu pai invadiu a casa o meu pai ele deixou no Gama que esta no inventario e se recusa sair e ainda quer tirar o dinheiro do meu pai no banco q ainda esta inventario antes da hora e alegando que não tem onde viver. Pois ai vai uma dica: more na cadeia!
A alguns anos mexeu muito comigo quando ele me achou aqui no Facebook e começou a compartilhar minhas fotos dizendo q eu precisava de oração. Ele é dissimulado demais, se faz de crente e as pessoas cai na lábia dele porque eh a única coisa q ele tem a favor dele. Eu sou budista e acredito muito no Karma e na justiça do universo, eu sei q ele vai ter o merece, mas eu não aguentava mais ficar calada, principalmente quando eu ouvi ontem meu tio defendendo ele, mesmo ele sabendo o que ele fez comigo na infância. A família do meu pai simplesmente não liga e eu já estou cansada de ficar calada e esperar algum juízo na cabeça das pessoas. A coisa que eu mais desejo nesses últimos anos é q esse inventario acabe logo nem q eu não fique com dinheiro nenhum, mas so assim eu não terei mai nenhum tipo de vinculo com aquele bastardo, eu não quero nenhum vinculo com aquele cara, só quero paz. Me dói quando a minha mãe tem q falar dele pra mim por causa de mais alguma que ele aprontou ou falou, por que nunca saiu nada de bom de noticias sobre ele. Eu não quero escutar nada sobre ele, quero fingir q ele ta morto, do mesmo jeito q eu fiz por 20 anos que eu não tive noticias dele, porque sempre tem q voltar? Como um maldito bumerangue parece que tudo sempre volta. Só que eu não vou ficar calada dessa vez. Ele fez tudo isso comigo quando eu era uma garotinha de 4 anos que mal brincava de bonecas ainda. Me dói muito quando eu descobri em terapia q não eh q eu tenha azar no amor, eu me fechei pro mundo, eu sempre tive medo de me envolver romanticamente com as pessoas, mas por causa de um trauma não tratado q eu carreguei por anos e me corroeu por dentro como um monstro se apossando nada deu certo pra mim, quem quer se envolver com uma pessoa fechada?! Eu sei que já se passaram 25 anos disso, mas eu não vou mais carregar essa cruz sozinha, e se quiserem cair nas falácias dele por mim tudo bem também, não me fara diferença na vida, não vou dizer que não fico com raiva. Alias, é exatamente por isso q eu estou fazendo este desabafo, porque eu tenho muita raiva, to com muita raiva. Não só dele, mas de todo mundo em minha volta q o conhece e não fala nada, parece que esta corroborando de q não foi nada demais e eu sou muito dramática, talvez você nem esteja e talvez você só nem saiba o que fazer ou dizer, mas talvez você seja como meu tio e prefira fechar os olhos ou acreditar q eu sou uma mentirosa, porque sei la, eh mais fácil ate. Acredite, eu também gostaria que eu fosse uma mentirosa. Mas porque eu inventaria logo isso? Tantas coisas legais pra eu inventar. Ninguém tem culpa disso, mas eu to cansada de me sentir sozinha e me calar, isso definitivamente não me fez bem. Em tempos de relatos de abusos de pessoas famosas eu decidi me abrir também, porque eu sou humana poxa, e quando eu vejo a galera desacreditando as denunciadoras eu fico pau meu, tipo porque alguém inventaria isso, logo isso? Ninguém precisa inventar uma coisa dessa. Não tem como, não tem porque, mesmo que ela tenha alguma doença mental, se ela for inventar alguma coisa, ela inventaria uma coisa boa sei la. Eu não quero compaixão, piedade, só compreensão. E tem gente q fala “ah, tem q provar”, como se prova algo assim? Outros dizem porque não denunciou na época? Só veio falar agora? Eu em minha condição de criança, frágil, inocente, não consegui dizer nada, por 11 anos, eu nunca disse absolutamente NADA, lutei comigo mesma por isso, debati comigo, tentei esquecer, enterrei naquela gaveta do esquecimento q a gente tem na cabeça e quando ela tenta se abrir um pouco você vai la e força ela a fechar imediatamente. Eu consigo entender perfeitamente porque uma vitima q foi abusada em 2014 ou 2002 nunca conseguiu trazer o assunto a tona. Eu acredito que quem nunca passou por isso nunca vai conseguir entender realmente. Eu vou superar isso, eu sei que eu vou, eu estou no caminho, eu sei que sou forte, mas eu não podia deixar de relatar isso. Como eu disse eu morro de medo de exposição, ainda mais nesse mundo onde tudo viraliza e você ler cada comentário INACREDITÁVEL das pessoas, não vou mentir, eu morro de medo disso. Mas eu tenho mais medo de isso acontecer com alguém e saber q meu relato poderia ao menos melhorar o espirito de uma pessoa e não ter feito, assim como muitos relatos me ajudou muito quando eu tinha 24 anos. Eu escrevo por mim, mas também por qualquer outra garota que já esteve na mesma situação. Essa porcaria de segurar magoas, cicatrizes e traumas tem que acabar. A gente tem q desabafar. Se da o direito de desabafar, pois eu aprendi que se você guarda uma dor, mais cedo ou mais tarde ela vai se manifestar, talvez não de um jeito obvio, mas pode ate ser através de uma doença, o nosso corpo precisa libertar a energia, a gente não pode guardar nada. O próprio corpo rejeita a energia acumulada e se manifesta de alguma forma, por isso o estresse, a ansiedade, a depressão acabam chegando e quando a gente menos espera. Eu não tenho esperança alguma na justiça humana, mas eu acredito que num futuro bem próximo isso pode mudar, a justiça pode ser mais ponderada em questões de abusos sexuais, com mulheres e crianças. Eu acredito, e se você já passou por algo parecido acredite também. Pois eu vou parar por aqui pois minhas pernas já estão tremendo e eu já prevejo outro ataque de ansiedade. Me desculpem se eu ofendi alguém com meu relato, mas eu nunca fui tao verdadeira na minha vida. Eu só quero que esse inventario acabe logo e que eu nunca mais ouça falar daquela pessoa, eh só o que eu preciso. E esquecer, eu preciso esquecer, mas como esquecer não eh uma opção que a vida não nos da, talvez por algum motivo, eu vou tentando sobreviver, do melhor jeito que eu puder.
